BEM VINDO

BEM VINDO

18 dezembro 2008

MAIS TRISTEZA

MAIS TRISTE

É triste, diz a gente, a vastidão
Do mar imenso!
E aquela voz fatal
Com que ele fala, agita o nosso mal!
E a Noite é triste como a Extrema-Unção!
É triste e dilacera o coração
Um poente do nosso Portugal!
E não vêem que eu sou...
eu...afinal,
A coisa mais magoada das que o são?!...
Poentes de agonia trago-os eu
Dentro de mim e tudo quanto é meu
É um triste poente de amargura!
E a vastidão do Mar, toda essa água
Trago-a dentro de mim num mar de Mágoa!
E a noite sou eu própria!
A Noite escura!!
FLORBELA ESPANCA

CASTELÃ DA TRISTEZA








CASTELÃ DA TRISTEZA
Altiva e couraçada de desdém,
Vivo sozinha em meu castelo:
a Dor!
Passa por ele a luz de todo o amor...
E nunca em meu castelo entrou alguém!
Castelã da Tristeza, vês?...
A quem? ...
-- E o meu olhar é interrogador
--Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr...
Chora o silêncio...
nada...
ninguém vem...
Castelã da Tristeza,
porque choras
Lendo, toda de branco,
um livro de horas,
À sombra rendilhada dos vitrais?...
À noite, debruçada, plas ameias,
Porque rezas baixinho? ...
Porque anseias?...
Que sonho afagam tuas mãos reais?
FLORBELA ESPANCA

NOITE



A NOITE DESCE...
Como pálpebras roxas que tombassem
Sobre uns olhos cansados, carinhosas,
A noite desce...

Ah! doces mãos piedosas
Que os meus olhos tristíssimos fechassem!
Assim mãos de bondade me embalassem!
Assim me adormecessem, caridosas,
E em braçadas de lírios e mimosas,
No crepúsculo que desce me enterrassem!
A noite em sombra e fumo se desfaz...
Perfume de baunilha ou de lilás,
A noite põe-me embriagada, louca!
E a noite vai descendo, muda e calma...
Meu doce Amor, tu beijas a minh'alma
Beijando nesta hora a minha boca
FLORBELA ESPANCA

PERDIDOS

No ano de 1871, Eça de Queirós disse:

«Estamos perdidos há muito tempo...

O país perdeu a inteligência e a consciência moral.

Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada.

Os carácteres corrompidos.

A prática da vida tem por única direcção a conveniência.

Não há princípio que não seja desmentido.

Não há instituição que não seja escarnecida.

Ninguém se respeita.

Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.

Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.

Alguns agiotas felizes exploram.

A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.

O povo está na miséria.

Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.

O Estado é considerado na sua acção fiscal

como um ladrão e tratado como um inimigo.

A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.

Diz-se por toda a parte:

“o país está perdido!”

Algum opositor do actual governo?...

Não!»

CARINHO TRISTE

Carinho Triste
Orkutei.com  Recados Animados para seu Orkut
CARINHO TRISTE
A tua boca ingênua e triste
E voluptosa, que eu saberia fazer
Sorrir em meio dos pesares e
chorar em meio das alegrias,
A tua boca ingênua triste
É dele quando ele bem quer.
Os teus seios miraculosos,
Que amamentaram sem perder
O precário frescor da pubescência.
Teus seios,
que são como os seios intactos das virgens,
São dele quando ele bem quer.
O teu claro ventre,
Onde como no ventre da terra ouço bater
O mistério de novas vidas e de novos pensamentos,
Teu ventre, cujo contorno tem a pureza
da linha do mar e céu ao pôr do sol,
É dele quando ele bem quer.
Só não é dele a tua tristeza.
Tristeza dos que perderam o gosto de viver.
Dos que a vida traiu impiedosamente.
Tristeza de criança que se deve afagar e acalentar.
(A minha tristeza também!...)
Só não é dele a tua tristeza,
ó minha triste amiga!
Porque ele não a quer.
MANUEL BANDEIRA

NÃO DIGA NADA!




Não; não digas nada
Não; não digas nada
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já.
É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à
flor Das frases e dos dias.
És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.
Cecília Meireles

Metamorfose





Metamorfose

Súbito pássaro dentro dos muros caído,
pálido barco na onda serena chegado.
Noite sem braços!
Cálido sangue corrido.
E imensamente o navegante mudado.
Seus olhos densos apenas sabem ter sido.
Seu labio leva um outro nome mandado.
súbito pássaro por altas nuvens bebido.
Pálido barconas flores quietas quebrado.
Nunca, jamais e para sempre perdido
o eco do corpo no próprio vento pregado.
Cecília Meireles

SE EU FOSSE APENAS ...







SE EU FOSSE APENAS...
Se eu fosse apenas uma rosa,
Com que prazer me desfolhava,
Já que a vida é tão dolorosa
E não te sei dizer mais nada!
Se eu fosse apenas água ou vento,
Com que prazer me desfaria,
Como em teu próprio pensamento
Vais desfazendo a minha vida!
Perdoa-me causar-te a mágoa
Desta humana amarga demora!
De ser menos breve do que a água,
Mais durável que o vento e a rosa...
Cecília Meireles

SÚPLICA




SÚPLICA



Olha pra mim, amor, olha pra mim;
Meus olhos andam doidos por te olhar!
Cega-me com o brilho de teus olhos
Que cega ando eu há muito por te amar.
O meu colo é arrninho imaculado
Duma brancura casta que entontece;
Tua linda cabeça loira e bela
Deita em meu colo, deita e adormece!
Tenho um manto real de negras trevas
Feito de fios brilhantes d'astros belos
Pisa o manto real de negras trevas
Faz alcatifa, oh faz, de meus cabelos!
Os meus braços são brancos como o linho
Quando os cerro de leve, docemente... Oh!
Deixa-me prender-te e enlear-te
Nessa cadeia assim etermamente! ...
Vem para mim,amor...
Ai não desprezes
A minha adoração de escrava louca!
Só te peço que deixes exalar
Meu último suspiro na tua boca!...
Florbela Spanca

AUSÊNCIA






AUSÊNCIA
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado. Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
VINÍCIUS DE MORAES