BEM VINDO

BEM VINDO

02 dezembro 2008

Êxtase Búdico



Êxtase Búdico


Abre-me os braços,
Solidão profunda,
Reverência do céu,
solenidade
Dos astros, tenebrosa majestade,
Ó planetária comunhão fecunda!
Óleo da noite sacrossanto,
inunda Todo o meu ser,
dá-me essa castidade,
As azuis florescências da saudade,
Graça das Graças imortais oriunda!
As estrelas cativas no teu seio
Dão-me um tocante e fugitivo enleio,
Embalam-me na luz consoladora!
Abre-me os braços,
Solidão radiante,
Funda, fenomenal e soluçante,
Larga e búdica Noite redentora!
 CRUZ E SOUSA

EM SONHOS!


Em Sonhos ...
Nos santos óleos do luar, floria
Teu corpo ideal, com o resplendor da Helade
E em toda a etérea, branda claridade
Como que erravam fluidos de harmonia...
As Águias imortais da Fantasia
Deram-te as asas e a serenidade
Para galgar, subir à Imensidade
Onde o clarão de tantos sóis radia.
Do espaço pelos límpidos velinos
Os Astros vieram claros, cristalinos,
Com chamas, vibrações, do alto, cantando...
Nos santos óleos do luar envolto
Teu corpo era o Astro nas esferas solto,
Mais sóis e mais Estrelas fecundando! CRUZ E SOUSA

01 dezembro 2008

CACHOEIRA DE PAULO AFONSO

CACHOEIRA DE PAULO AFONSO

A Tarde

Era a hora em que a tarde se debruçaLá da crista das serras mais remotas...
E d’araponga o canto, que soluça,
Acorda os ecos nas sombrias grotas;
Quando sobre a lagoa, que s’embuça,
Passa o bando selvagem das gaivotas...
E a onça sobre as lapas salta urrando,
Da cordilheira os visos abalando.
Era a hora em que os cardos rumorejam
Como um abrir de bocas inspiradas,
E os angicos as
comas espanejam
Pelos dedos das auras perfumadas...
A hora em que as gardênias, que se beijam,
São tímidas, medrosas desposadas;
E a pedra...
a flor...
as selvas...
os condores Gaguejam...
falam... cantam seus amores!
Hora meiga da Tarde!
Como és bela
Quando surges do azul da zona ardente!...
Tu és do céu a pálida donzela,
Que se banha nas termas do oriente...
Quando é gota do banho cada estrela,
Que te rola da espádua refulgente...
E, — prendendo-te a trança a meia lua,
Te enrolas em neblinas seminua!...
Eu amo-te, ó mimosa do infinito!
Tu me lembras o tempo em que era infante.
Inda adora-te o peito do precito
No meio do martírio excruciante;
E, se não te dá mais da infância o grito
Que menino elevava-te arrogante,
É que agora os martírios foram tantos,
Que mesmo para o riso só tem prantos!...
Mas não m’esqueço nunca dos fraguedos
Onde infante selvagem me guiavas,
E os ninhos do sofrer que entre os silvedos
Da embaíba nos ramos me apontavas;
Nem, mais tarde, dos lânguidos segredos
De amor do nenufar que enamoravas...
E as tranças mulheris da granadilha!...
E os abraços fogosos da baunilha!...
E te amei tanto — cheia de harmonias
A murmurar os cantos da serrana,
—A lustrar o broquel das serranias,
A doirar dos rendeiros a cabana...
E te amei tanto —
à flor das águas frias
—Da lagoa agitando a verde cana,
Que sonhava morrer entre os palmares,
Fitando o céu ao tom dos teus cantares!...
Mas hoje, da procela aos estridores,
Sublime, desgrenhada sobre o monte,
Eu quisera fitar-te entre os condores
Das nuvens arruivadas do horizonte......
Para então, — do relâmpago aos livores,
Que descobrem do espaço a larga fronte,
—Contemplando o infinito...,
na floresta Rolar ao som da funeral orquestra!!! CASTRO ALVES